Os
pescadores dos tempos em que se ia até a Ilha de Alcatrazes a remo para
pescar contavam que muitas vezes se abasteciam de isca nos ninhos.
Boiçucanga é uma vila do litoral norte do Estado de São Paulo, a 60 km ao
norte de Bertioga e 35 km ao sul de São Sebastião, de cujo município faz
parte.
Este trecho do litoral é caracterizado pela abundância de montanhas próximas
ao mar, entrecortadas por praias dos mais variados aspectos. Em torno de
cada praia cresceu uma vila e a maior delas é Boiçucanga.
Sabe-se que neste lugar existiu uma aldeia indígena. Tupinambás e
tupiniquins travavam aqui suas batalhas e o nome, Boiçucanga, surgiu da
aglutinação de M’boi (cobra), Açú (grande) e Canga (cabeça), entendida por
alguns como “cobra da cabeça grande”. Os poucos índios remanescentes na
região são guaranis, vindos em épocas mais recentes.
No século XIX, Boiçucanga era uma fazenda de café movida a escravos que
pertencia a uma família portuguesa. Com o fim da escravidão, algumas
famílias de colonos, agricultores e pescadores se estabeleceram na área e se
auto-denominam caiçaras.
No início do século passado, algumas famílias foram contratadas para serem
caseiras da fazenda; tiveram grande importância no desenvolvimento porque
trouxeram benefícios e os filhos se tornaram pessoas importantes: Hilarião
de Matos, Maquininha, etc. Hoje, só o mais novo está vivo, seu Maneco, que
mora na praça da Mentira.
Sempre que viajo, gosto de
conhecer um pouco da história local e assim, vivendo em Boiçucanga, vim a
descobrir este ótimo e esclarecedor livro “Carapirás”, de Nícia Guerriero
(repórter fotográfica) e Xixico (pescador), cujo texto abaixo é um resumo e
uma adaptação.
Carlotta
Carapirá é o nome que o caiçara dá para o Alcatraz, uma das espécies de aves
marinhas que freqüentam Boiçucanga, grande companheiro dos pescadores e dos
barcos nas andanças mares afora.
O arquipélago de Alcatrazes, visto da praia de Boiçucanga, foi também
batizado com esse nome devido à imensa quantidade dessas aves que lá vivem.


Capela de Nossa Senhora Conceição
Nos anos 40 apareceram os barcos de cabotagem, grandes e
motorizados que passavam pela costa e transportavam de tudo, menos o peixe
fresco (fundamental na economia local); para transportar o peixe até o Porto
de Santos, este era salgado pois os barcos não tinham refrigeração.
Por volta de 1960 chegou a estrada (de terra, obviamente). O número de
comerciantes e veranistas foi crescendo lentamente, graças à precariedade da
estrada, mas durante muitos anos, mesmo com a estrada de terra, só
"exportavam" peixe fresco quando apareciam compradores com seus
caminhõezinhos.
Os anos 70 ficaram marcados pela chegada dos campistas.
O começo dos anos 80 foi a época das primeiras preocupações ambientalistas e
também foi marcada pela chegada do asfalto. A balsa de Bertioga foi
substituída por estrada. Hoje o turismo tornou-se a atividade principal, o
turista chega aqui facilmente, encontra bonitos hotéis, pousadas,
restaurantes requintados, lanchonetes, sorveterias, shopping-centers.
Ainda hoje encontra-se em Boiçucanga pescadores tecendo suas redes sob a
sombra das imensas jaqueiras ou em frente a suas casas.
Além do arquipélago de Alcatrazes, que se avista ao longe, bem mais próximas
estão a Ilha dos Gatos, a Ilha das Couves , a Ilha Montão de trigo e As
Ilhas, bons lugares que os pescadores usam para capturar Enxovas e Bonitos.
A Garoupa é o peixe mais apreciado, basicamente pescados na linha ou no
mergulho.
A Fala de Boiçucanga
Por ser uma comunidade razoavelmente isolada até vinte anos atrás,
Boiçucanga tem nos seus habitantes mais tradicionais várias expressões
lingüisticas próprias, algumas semelhantes a outras de toda a Costa sul,
outras a todo o litoral. Até hoje pode-se distingüir os habitantes das vilas
vizinhas pelo jeito de falar, em cada vila um sotaque, apesar dos poucos
quilômetros de distância entre si.
Comum nos caiçaras mais idosos de todas as vilas é o uso dos pronomes de
tratamento na segunda pessoa, isto é, tratando-se por tu e vós –
principalmente o vós -, com todo o respeito.

Carioca, caiçara e um dos mais
antigos pescadores da região.
Você ainda o encontra fazendo sua
rede de pesca em frente a sua casa
na praça da Alegria
E voltando aos pescadores
Se você chegar à praia de madrugada, assim uma meia hora antes de o dia
clarear, vai ouvir e talvez ver a movimentação dos barcos, redes, remos,
motores. Quando no meio do dia o “pessoal de fora” vem se estender na areia
e vê aquele pessoal sentado na sombra embaixo da árvore, batendo papo, pensa
que esses pescadores não fazem nada.
Se for lá perguntar quantas coisas eles já fizeram ou viram acontecer... Já
tem dia que não chega um peixe, mas com certeza não é culpa do pescador. Se
não saiu nenhuma canoa é porque o mar não está deixando. Mas pode contar que
nesse dia, vários pescadores vão remendando a rede ou limpando o motor, às
vezes esperando a primeira chance de correr lá para resgatar sua rede que o
mar pode estar destruindo. Agora, se os barcos saíram, mas os peixes não
vieram, então “fracassou”. Acontece.
